Dos tempos bíblicos até 1897 Rembrant: pintura de Moisés entregando os Dez Mandamentos (1659) Fonte: Domínio Público

Desde a época das alianças bíblicas, os judeus comprometeram-se a acreditar em um único D’s, num vínculo inquebrável com a Terra de Israel. Desde o princípio, a identidade judaica foi cercada por compromissos mútuos entre D’s e o povo.

Estes incluíam viver na terra de Israel, a promessa de D’s de torná-los uma “grande nação”, dando-lhes um nome e sendo uma benção para outras nações da Terra. Para estas promessas, os judeus foram obrigados a se submeterem a um comportamento específico, ou seja, seguir leis, rituais, costumes etc. O conhecimento da Torá (Bíblia) e Halachá (a tradição oral que envolvia todos os aspectos da vida dos judeus) eram os elementos principais da identidade judaica. Ambos tiveram origem Antes da Era Comum (AEC). O estudo da Torá incluía a educação dos jovens, onde a importância de Sião, ou da Terra de Israel, era afirmada como parte integral da identidade judaica. Nos Salmos está escrito: “Junto aos rios da Babilônia, nós nos sentamos e choramos com saudade de Sião.”

Os judeus evoluíram como povo, em função de suas leis, experiências históricas comuns e por causa do que os outros lhes fizeram por serem judeus. Após vagarem sob a liderança de Moisés, os judeus fundaram o seu Estado e construíram o templo, onde suas crenças eram propagadas. O templo foi destruído no ano 586 AEC, reconstruído novamente e destruído, outra vez, no ano 70 A.D. Dois Estados judeus foram criados e destruídos. Desde a expulsão da Terra de Israel pelos romanos, os judeus esforçaram-se para manter a sua crença essencial no monoteísmo, no Shabat e nos princípios básicos de comportamento. O aprendizado da Torá, a obediência às regras estipuladas e a permanente devoção aos eventos do ciclo de vida determinaram o fortalecimento comunal interno. Por meio da oração, eles mantiveram a conexão com sua terra ancestral. Além disso, o calendário religioso era determinado pelo cronograma de dias de festa e jejum, conforme eram celebrados em Eretz Israel (Terra de Israel). Não importando se viviam em Bagdá, Berlim ou Budapeste, todos os judeus liam a Torá, mantinham e observavam seus costumes e leis, e conservavam o ”desejo” de voltar a Sião.

A vida comunal judaica como minoria

Em todos os locais onde viveram, os judeus sempre existiram como minoria. Essa repetida realidade demográfica afetava as suas vidas todos os dias e, principalmente, as interações com não judeus. Sem direitos e privilégios estabelecidos ou protegidos, eles constantemente sofriam abusos físicos nas mãos de califas, autoridades eclesiásticas, czares, reis, papas, pessoas notáveis, sultões, teólogos e outros. Os judeus eram rotineiramente punidos por sua perseverança coletiva em aterem-se às suas crenças (muitos não judeus chamavam isto de obstinação) e por não adotarem as fés majoritárias, como o cristianismo ou o islamismo. Não era incomum aos judeus serem responsabilizados pela morte de Cristo, pelos períodos econômicos desfavoráveis e por causar pragas e doenças. A morte em defesa da prática do judaísmo também não era um fato incomum. Em períodos favoráveis, os judeus eram tolerados, enquanto nos maus momentos eram perseguidos. Quase sempre, a ansiedade e a incerteza caracterizaram a existência judaica. A especulação nas comunidades judaicas era sempre centrada se o autocrata seguinte seria melhor ou pior do que o atual. A confiança pela segurança da vida e do patrimônio ficavam a cargo do autocrata não judeu. Quando possível, os judeus solicitavam e obtinham limitados direitos, concedidos pelo governante da região onde viviam.

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Em 1555, papa Paulo IV obrigou os judeus de Roma a viverem em um gueto. (Fonte: Domínio Público)

Em algumas ocasiões, estes acordos, pactos ou privilégios eram negociados mutuamente; outras vezes eles eram simplesmente impostos. Tais acordos, algumas vezes escritos, outras vezes subentendidos, especificavam as limitações dos direitos civis dos judeus, as profissões que eles poderiam ou não exercer, as restrições sobre onde poderiam viver e o direito de posse de bens. Para os judeus, todos estes acordos com os autocratas visavam “ganhar tempo” até que as condições sociais e políticas melhorassem; fato que, é claro, algumas vezes não ocorria. Na Espanha, durante o reinado de Fernando e Isabel, no final dos anos 1400, a aceitação tolerante rapidamente se transformou em perseguição severa. No caso da Espanha, após terem a sua expulsão anunciada, os judeus tiveram as opções de converterem-se à força ou voluntariamente ao catolicismo, praticarem o judaísmo de forma secreta, serem mortos por recusarem a aceitar os decretos contra eles, ou abandonarem a Espanha rumo a outros lugares da Europa ou região do Mediterrâneo. Também no mundo muçulmano, califas e sultões impunham restrições à vida judaica. Os judeus resistiram a séculos de precariedade, onde incertezas físicas, sociais e econômicas eram iminentes, da mesma forma como era certa a chegada do Shabat ao final de cada semana. Os judeus nunca puderam reverter sua condição de minoria, mas procuraram minimizar a sua vulnerabilidade.

Na Europa Ocidental e na Oriental, no Norte da África e no Oriente Médio, os judeus mantiveram-se como comunidades para sobreviverem. Eles cuidavam dos eventos do ciclo de vida judaico, eram educados no próprio núcleo, sustentavam suas próprias necessidades comunais, e faziam os ajustes necessários relativos à vida cotidiana, sem sacrificar suas crenças básicas. Para os judeus que viviam no Império Otomano, no Norte da África e no Oriente Médio, salvo raras exceções ao longo do tempo, a vida era mais tolerável que na Europa Ocidental ou na Europa Oriental. Em Bagdá, Damasco, Cario, Istambul, Fez e onde mais existissem comunidades judaicas pequenas e maiores dentro dos limites do Império Otomano, os judeus eram bem-sucedidos na atividade comercial, tinham acesso à educação e algumas vezes tornavam-se conselheiros e ministros no mundo árabe e muçulmano. Muitos judeus que estabeleceram-se em áreas abrangidas pelo domínio otomano eram tratados como uma minoria tolerada, de maneira análoga aos cristãos que viviam sob o domínio do Islã. Os judeus tinham permissão para conduzir os seus próprios assuntos cívicos, tomar as suas resoluções religiosas, e essencialmente tinham uma existência tolerada. Na economia e no comércio, os judeus geralmente interagiam com êxito e regularmente com as populações muçulmanas.

O messianismo judaico continuou a dominar a sua teologia. Em sua essência, estava a crença de que se continuassem a praticar, rigorosamente e sem transgredir as leis e os costumes, conforme o que D’s havia traçado, as suas alianças e mandamentos, então haveria o fim dos dias e os judeus retornariam à Terra de Israel. Isto os libertaria do prolongado exílio. A questão básica foi colocada: os judeus deveriam continuar à espera de Messias, ou deveriam ser proativos, indo em busca do que era tido como um mundo em constante mudança ao seu redor?

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O Bairro Judeu de Jerusalém em 1870 (Fonte: Domínio Público).

A vida para os judeus na Europa continuava a ser dura. Habitualmente impedidos de exercer diversas profissões, excluídos de escolas e universidades e forçados a viver em áreas geográficas confinadas de cidades, vilas e campos, era algo normal. A partir da metade dos anos 1700 em diante, as perspectivas de perseguição contínua diminuíram gradativamente com a evolução do período de emancipação da Europa. O conceito básico que afetava tanto judeus quanto não judeus da mesma forma era o grau em que os direitos individuais poderiam superar ou substituir o poder dos autocratas. Estes foram os temas centrais encontrados na Revolução Americana e na Revolução Francesa. A adoção da noção de direitos individuais propagados ao seu redor enfraqueceu a ideia da espera pela intervenção divina para alterar a precária existência dos judeus. Em locais onde os judeus eram expostos à literatura ou à filosofia que defendia os direitos humanos, as delimitações tradicionais sobre a autonomia da comunidade judaica também começaram a se fragilizar. Esta genuína mudança no governo e na vida política, distante da abominável presença autocrata que, por séculos, puniu o modo de vida judaico e o direito à propriedade, e que visava à promoção dos direitos individuais foi, sem dúvida, bem recebida pelos judeus que viviam na marginalidade social e econômica. Como era esperado, os judeus criaram expectativas de que poderiam ser aceitos como iguais pelo mundo não judeu. A partir da metade dos anos 1700 em diante, os judeus que viviam na Europa começaram a questionar qual deveria ser o papel do judaísmo e das práticas judaicas no mundo moderno.

Em busca do sionismo

Alguns responderam à questão da redefinição das suas tradições judaicas por meio da adaptação ou adoção de novos caminhos ideológicos. O judaísmo Reformista e o Conservador surgiram em resposta à busca para serem aceitos pelo mundo não judeu; para outros, o caminho escolhido foi a conversão ou a total interrupção da prática do judaísmo. Alguns aceitavam os ideais socialistas, mantendo algum tipo de prática religiosa, outros se converteram ao cristianismo. Já ao redor de 1840, os rabinos Yehuda Alkalai e Zvi Kalischer sugeriram, independentemente um do outro, que a condição judaica poderia ser melhorada se fosse impulsionada pelas decisões humanas para o retorno a Sião, em vez de esperar pela intervenção divina ou messiânica.

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Nascido em Sarajevo, o rabino Yehuda Alkalai pedia que os judeus voltassem à Terra de Israel (Fonte: Domínio Público)

Alkalai também sugeriu que o hebraico fosse usado no dia a dia para unificar os judeus, e não simplesmente relegado ao uso sagrado. Em locais onde os conceitos sobre nacionalismo eram conhecidos e utilizados, pequenos grupos de judeus falavam sobre o nacionalismo judaico, a necessidade do território judeu, ou o sionismo como outra opção de identidade a ser considerada pelos judeus.

O sionismo encantava àqueles poucos judeus que buscavam a liberdade, procuravam ter segurança, mas queriam desfrutar tudo isso em seu próprio lugar, a Terra de Israel. Este era o ponto-chave do sionismo: os judeus já não queriam mais que seus direitos continuassem dependendo das atitudes incertas de outras pessoas. Os judeus queriam controlar o próprio destino na sua própria terra. Nos anos 1800, pouquíssimos judeus da região do Oriente Médio sentiram-se suficientemente entusiasmados com a convicção sionista para se mudar para a Terra de Israel, embora um pequeno grupo de judeus iemenitas tenha imigrado no final daquele século. A grande maioria dos judeus que imigrou, vindos da Europa e da América do Norte nos séculos XVIII e XIX, não deu muito apoio ou atenção ao desenvolvimento do sionismo. Na metade dos anos 1800, a maior parte dos judeus vivia em locais não democratas; um século e meio mais tarde, a maior parte dos judeus passou a viver em democracias onde a vida judaica não era mais determinada pela vontade e pelo capricho de outros.

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A população judaica mundial por regiões geográficas: Locais não democratas (1880) comparados com locais democratas 

(2014). Fontes: American Jewish Yearbook, Sergio DellaPergola (American Jewish Year Book 2014).

Não é surpresa o fato de o sionismo ganhar força rápida em locais onde, com frequência, os judeus eram sistematicamente oprimidos, e onde o governo autorizava o antissemitismo e a violência. Na Alemanha nos anos 1870, o antissemitismo assumiu a dimensão de racismo e na Europa Oriental, os pogrons, ou ataques contra a vida e o patrimônio dos judeus, aumentaram com frequência e intensidade. Como frequentemente era negado aos judeus a igualdade cívica, porque praticavam sua fé abertamente, muitos pensadores sionistas, não todos eles, deram preferência ao judaísmo secular como parte do desenvolvimento do seu recente ethos nacional. Assim sendo, houve o abandono frequente dos vínculos talmúdico e rabínico. Referências históricas à Bíblia em substituição à prática religiosa tornaram-se importantes para os primeiros sionistas, embora um bom número de judeus ortodoxos também tenham aceito a ideia do restabelecimento da presença nacional dos judeus na Palestina. Alguns dos primeiros sionistas buscavam apenas o renascimento cultural judaico, conforme era defendido por Ahad Ha’am: a renovação do hebraico como língua falada ou escrita, diferentemente daquele usado nas orações; outros pensadores nacionalistas judeus queriam que o sionismo fosse repleto de ideais socialistas. Uma característica comum a todos os sionistas, entretanto, era a busca para renovar a sua identidade e vivenciar o seu futuro em um território nacional. judeu. E ainda, por mais que o sionismo fosse ”revolucionário”, ele foi adotado ou apoiado por apenas uma parcela ínfima de judeus.

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Judeus romenos rumo à Palestina/Terra de Israel, agosto de 1882 (Fonte: Arquivos Sionistas Centrais)

A condição verdadeiramente precária dos judeus, mesmo em países liberais como a França, foi revelada novamente no Caso Dreyfus. O desdobramento do caso influenciou Theodor Herzl, um jornalista natural de Viena, a escrever um panfleto em 1896 (O Estado Judeu) no qual pedia aos judeus para eliminarem a insegurança em que viviam por meio do estabelecimento de um estado próprio. Alfred Dreyfus, um capitão do exército francês de origem judaica, foi falsamente acusado e condenado por fornecer segredos militares ao governo alemão. Acompanhando o julgamento na França liberal, dentre todos os lugares, Herzl reconheceu que os judeus, como Dreyfus, estariam inseguros em qualquer lugar onde vivessem. Herzl capturou um motivo já existente para que os judeus buscassem segurança e liberdade em seu próprio lugar.

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Henri Meyer representação de Dreyfus tendo sua patente removida, 1895 (Fonte: Domínio Público).

Em agosto de 1897, Herzl organizou o Primeiro Congresso Sionista, na cidade suíça de Basileia. Mais de 200 representantes sionistas de todos os continentes trouxeram uma variedade de opiniões e entusiasmo ao primeiro encontro da Organização Sionista Mundial (WZO, na sigla em inglês). Durante as duas décadas anteriores, cerca de 15.000 judeus originários da Europa e do Oriente Médio já haviam seguido para a Palestina, mas ao contrário dos judeus que passaram pela Terra de Israel antes de 1882, estes novos imigrantes traziam com eles algum tipo de intenção política nacional. Reforçados por séculos de antissemitismo e unidos pela fé do judaísmo, os sionistas utilizaram suas experiências comunais já bem solidificadas para formar um novo modo de vida. Continuando a negociar com pessoas politicamente poderosas, os judeus não procuravam mais assegurar os seus direitos e privilégios no território de outros. Eles se envolveram em negociações diplomáticas sobre a obtenção de  direitos os quais esperavam ser transformados no que viria ser sua própria pátria. Os sionistas, que inicialmente não tinham qualquer tipo de poder, gradualmente começaram a adquirir e exercer influência política.

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Futura área da Palestina administrada pelo Império Otomano nos anos 1890. (Fonte: Kenneth W Stein, The Land Question in Palestine, 1917-1939, North Carolina Press, 1984.) (A Questão da Terra na Palestina, 1917-1939, em tradução livre).

Inicialmente, os sionistas escolheram um de dois metódos ao longo da sua jornada pela soberania nacional. O primeiro enfocava na busca da permissão diplomática e proteção física de uma grande potência, ou de várias potências. Isto era o sionismo político. O segundo método enfocava na na simples criação de fatos. Isto significava a determinação de um lugar próprio para — emigrarem, comprarem propriedades na Terra de Israel e criarem enclaves judaicos, vilas e assentamentos — e  posteriormente pedirem permissão aos poderes que tinham influencia sobre o Oriente Médio. Este era o sionismo prático. Os sionistas debateram entre si sobre qual seria o método preferido. Nas primeiras décadas dos anos 1900, os dois métodos fundiram-se gradualmente em um terceiro. Ainda uma outra corrente sionista emergiu, a qual queria dispor de uso de força para estabelecer e assegurar a presença judaica na Terra de Israel. Permaneceram diferenças acerca da definição de sionismo e suas tendências econômicas, sociais, políticas, religiosas e filosóficas. Suas combinações eram variadas: capitalista, socialista, marxista, rural, urbana, religiosa ou secular.

Sem uma corrente política dominante, a prática do sionismo na Terra de Israel permaneceu diversificada, frequentemente controversa, mas sempre dinâmica. Para todo tipo de imigrante individual, independentemente da sua evolução, a vida na Palestina não era considerada fácil. Algumas vezes, foi difícil o bastante para alguns que tentaram o sionismo virem a desistir, emigrando para outro lugar. A mudança no rumo dos acontecimentos no Oriente Médio, na Palestina e na Europa durante as duas primeiras décadas do século XX teve grande influência na marcha da história do sionismo, e, particularmente, na capacidade de unir o povo à terra. Os judeus que imigraram ou ajudaram o movimento sionista a se desenvolver criaram novas instituições para atender às necessidades imediatas. Algumas organizações como a Palestine Colonization Association (Associação de Colonização Judaica na Palestina), foram antecessoras da Organização Sionista Mundial; outras entidades como o Fundo Nacional Judaico, o Palestine Colonial Trust e a sucursal da Organização Sionista Mundial em Jafa/Palestina originaram-se a partir Organização Sionista Mundial. Estas organizações e dezenas de outras de porte menor ajudaram os judeus a catalizar a lenta transição a um novo estilo de vida, assegurando a reconstituição de uma presença demográfica judaica pequena, porém vibrante, na Palestina.